terça-feira, 21 de junho de 2016

ARTESANATO COM DESIGN, SIM SENHOR!

Recentemente visitei um bazar do meu bairro, daqueles que reúnem na calçada vários negócios criativos. Conversando com alguns amigos participantes, surgiu a ideia de levar o conceito lugastal para o bazar, e dias depois fiz contato com o telefone informado. Ao relatar meu interesse em participar, 3 perguntinhas básicas e inconsistentes foram feitas: "vc tem página? vc tem perfil no facebook? vc tem fotos do seu trabalho" Afirmei que tinha, e enviaria em seguida por email. Confesso que, com surpresa, uma hora depois recebi a  seguinte resposta da secretária-da-curadoria-do-bazar :  "infelizmente seu produto não se encaixa na proposta da feira: que é design". (que produto?? sequer questionaram o que eu apresentaria!) 

(foto Carlos Sillero)

Salvo eventual motivo pessoal nessa "criteriosa avaliação" e rápida resposta, concluí rapidamente ter me equivocado ao procurar a produtora que organiza o mesmo. Em sua página, entendi que promovem ações que valorizam a criatividade. (????).  Entendo e respeito escolhas e opções, afinal,  vivemos num espaço democrático; mas eu seria injusta com meus princípios e crenças se não expusesse minha opinião (o que fiz), e, como esperado, não houve resposta.  
O blog lugastal é um espaço real e por aqui sempre expus opiniões, erros e acertos do meu handmade business. Por isso julguei importante dividir o fato. Eis parte do email que enviei, apenas retirei a parte inicial, onde me refiro à empresa produtora. 

"(...) Lamentavelmente há um grande engano no pré julgamento de que quem trabalha com artesanato produz peças comuns e desinteressantes. Justamente foi nesse contexto que minha marca tornou-se referência no mercado artesanal nacional,  por fugir sempre do convencional, e  pelo fato de que o planejamento, desenvolvimento e execução de todas as coleções  e ações lugastal são permeadas com inovação e design, numa proposta diferenciada, porém feita a mão (produto artesanal não significa produto com escassez de bom gosto).

Quando participo de eventos ou entrevistas, muitas vezes me qualificam como designer, empresária, crafter,  criativa, bla bla bla. E, apesar de ter um perfil profissional bem diverso e que se encaixa em qq uma dessas descrições, faço questão de dizer que sou artesã.  Trabalho com artesanato, e para a valorização do mesmo, o que já ocorre naturalmente em países onde a cultura se sobrepõe a valores comerciais. 

Há diversos e distintos “braços” ligados à marca lugastal: o  estúdio em Porto Alegre com oficinas de costura criativa, produtos diversos para público final (executados conforme o perfil do público), cursos e oficinas ministrados em várias capitais, palestras e participação como expositora e palestrante/blogueira (acho feias ambas as  palavras - palestrante expõe suas experiências, e blogueira vende suas opniões) e em diversas feiras e eventos, como  Craft Design,  SP Patchwork Design (ambas em SP), Salon Créations & Savoir-faire (promovido pela revista francesa Marie Claire Idées) e outros eventos direcionados à futuros empreendedores criativos, promovidos pelo Sebrae, Elo7, e empresa com ensino criativo à distância Eduk. Tenho canais diretos com artesãos e orgulho em proporcionar um olhar mais atento de cada um deles ao produto que quer apresentar ao mercado. Além dessas experiências rapidamente citadas, cito algumas referências que considero bem bacanas;
- anualmente assino coleções de tecidos de tecidos para o segmento artesanal e têxtil –comercializadas nas melhores lojas de tecidos do país; tecidos usados inclusive em coleções de estilistas e decoradores descolados  (em desenvolvimento de produtos para o segmento criativo há design)
- campanhas lugastal de produtos criativos para a webstore Westwing – design e estilo para casas contemporâneas
- matérias lugastal em diversas revistas do segmento artesanal, três delas em capa de edições da revista Make – arte e design para o bem viver (revista direcionada ao público do mercado criativo artesanal), e outras como Burda, Caderno Donna, revista Casa&Cia.

Tenho o hábito de produzir peças e deixá-las guardadas para o momento exato – o que facilita bastante minha agenda de viagens e eventos. Por isso pensei em participar do Open, pois preparei uma linha de peças bordadas a mão e outras numa técnica que é super tendência nessa temporada pré inverno; Infelizmente bati na porta errada.  De qq forma  agradeço novamente pelo tempo e paciência em “avaliarem” minha  marca, apesar de não enquadrá-la na proposta da feira. "


O tema foi postado nas redes sociais onde participo (facebook e instagram), gerando consequentes opiniões. Embora concorde com algumas e discorde de outras, o que considero importante é a reflexão e o diálogo entre criativos do segmento artesanal. E é a isso que me proponho, valorizar o mercado, produto e segmento criativo e evitar que outros profissionais recebam respostas inconsistentes e preconceituosas como essa.

“o luxo do século 21 é ter um artigo feito à mão, carregado de amor e carinho”

Suzy Menkes -  VOGUE



p.s: o título deste post é uma paródia ao livro "criativo e empreendedor, sim senhor!", autora Rafaela Cappai. 

3 comentários:

Lucia Caribe disse...

Eh, esse tipo de preconceito gera uma certa revolta no coração, é como se dissesse, "seu filho não é qualificado para tal coisa"...Na minha cidade tem um.espaço que é da prefeitura, que a princípio foi aberto para ensinar artesanato a pessoas carentes, ou com depressão, enfim...a pessoa que administra gosta de artesanato,mas um.artesanato sem muita cor, e por conta disso ela barra as pessoas de colocarem qualquer coisa lá
Meu artesanato é super colorido, já tentei colocar algo lá na lojinha pra vender, mas ela não aceita, pq não me encaixe no gosto particular dela..Seu trabalho é lindo, super criativo e inspirador, isso que vale. Bjs

nathalia alves disse...

Acho que vc tem mais é que rir disso! Sabe aquele momento em que vc para olha e pensa, puta que pariu que vergonha alheia!!! Quando fiz sua oficina de Tildas em Macaé, não foi para aprender Tilda foi para tietar, mas além disso paguei para ouvir de vc, algo que foi muito importante para mim, não me lembro ao certo como foi a pergunta, eu estava tão feliz e encantada com a oficina com vergonha e ainda assim te perguntei: Lu o que vc acha de quem diz que quando usamos molde não temos um processo criativo? E vc rapidamente me respondeu, algo assim não somos iguais, no final vão sair 10 bonecas diferentes!!!! Naquela época eu tentava fazer monografia sobre artesanato e só consegui concluir agora, tenho certeza que vc vai amar ler, não porque ela fala especificamente sobre o feltro, mas sim porque ela desconstroi uma linha de pensamento que infelizmente temos no Brasil sobre as questões do trabalho manual. E para isso tive que pesquisar muito. Eu não aceitei o fato! Acho que sou uma ativista do artesanato moderno, rsrs se o artesanato não sofre modificações, então o que estamos fazendo? Se eu não sou artesã eu sou o que? Olhando com outro olhar isso pode ser bom, pois eu sei que oque vc sente, e não foi por causa do não de um bazar, não foi por causa do ego, foi porque patchwork não é considerado artesanato e vc está com a sua alma ferida. Pois trabalhar com artesanato, além de envolver essência, envolve a alma, são coisas, mãos, cabeça, imaginação e a gente com a gente mesmo!!

nathalia alves disse...

Lu não consegui continuar o comentário, estou morrendo de sono e dando mama, é quando disse que por um lado pode ser bom é que vc pode levantar essa questão e mudar a situação!!! Se quiser conversar pode me mandar um mail mariamoledesign@gmail.com