quarta-feira, 19 de junho de 2013

Dá pra viajar no tempo!?

(Revista Make - junho 2011) 


Pra mim ele sempre teve cabelos brancos (pelo menos desde que eu lembro), era calmo, porém rígido, e, como boa entendedora, nenhum palavra era necessária – só o olhar já bastava. E a vida andava assim, na linha, e poucas, muito poucas eram as escapadas das tais regras.

A casa do meu avô era distante uns 140km da minha,  meu “mundo de férias”, e continha todas as delícias que fugiam da rotina e das obrigações: lá eu não precisava acordar cedo pra ir ao colégio, passeava-se pela rua sem precisar dizer aonde iria (na cidade tinham apenas duas ruas grandes, com mínimas possibilidades de perigo), e até as obrigações eram leves, porém, explícitas – estar em casa antes do anoitecer, não tomar banho de rio sem avisar a vó (sozinha nuuunca, seria uma espécie de prisão perpétua das férias), e ajudar a vó a secar a louça. Ah... em épocas de primavera, a regra n.4 era varrer a calçada, pois as florzinhas cor de rosa deixavam um tapete lindo, um verdadeiro "convite" pra alguém cair de bunda e quebrar a bacia. Eita vida dura era aquela... acho que por isso as férias eram sempre tão desejadas. Ah... dava também pra levar amigas para a “temporada”, mas a parceira da vez tinha de se enquadrar no esquema da casa.


Já era alfaiate aposentado, e nos meus tempos de criança e adolescente, suas atribuições eram totalmente voltadas à cozinha, jardinagem e tudo o que fosse preciso para manter a estrutura do lar em ordem. A  casa era de amigos; nos encontros tinha música (gaita, violão e violino), cerveja, churrasco ou comida de panela – em noites de festas a gente ficava isenta de secar a louça (também não lembro quem secava, nem quero lembrar!. Um dos programas delícia era subir no sótão,  bisbilhotar todo e qualquer resquício da já aposentada alfaiataria – tudo era tão antigo e ao mesmo tempo tão real, até o manequim deitado num canto com bigode fino que olhava pra gente sem dizer nada. Às vezes dava medo, principalmente à noite, sob a luz fraca suspensa num fio, com um interruptor na própria lâmpada. Nos armários do sótão tinham algumas roupas,um cheiro de guardado que, obviamente não fazia a menor diferença – bom mesmo era provar os ternos (que ele chamava de fatiota) e se preparar para o desfile imaginário.

É claro que os netos reclamavam – secar a louça depois do almoço era uma tarefa "'árdua" e interminável (ele cozinhava, e sujava muiiiitas panelas); não dar uma escapadela sozinha no rio era um sacrifício (imagina o perigo!!!) e a gente achava ruim que seu tempero preferido era ... o alho! Ahhh o que os anos não fazem, quem me dera eu ter ele pra abraçar bem pertinho de mim, sem reclamar do cheiro de alho (os jovens não perdoam... vamos combinar!)
  
Às vezes me pego olhando pro balcão que habitou por anos a Alfaiataria Rodolfo Neumann, na pequena Sinimbú, por anos em que eu ainda nem existia – depois fez parte do meu mundo imaginário, e hoje decora (e atende muitíssimo bem) o estúdio lugastal. Que vontade eu tenho de voltar num tempo, mesmo sabendo que é impossível; que desejo eu sinto de poder contar ao vô que hoje vivo entre tecidos (um pouco mais coloridos do que os sóbrios tons de preto/cinza/marinho que ele trabalhava) tesouras e costuras. O tempo não volta, mas viajar e imaginar é livre e faz bem, ok?!


9 comentários:

disse...

Ai achei que não iria conseguir chegar ao fim do texto, mais cheguei com os olhos cheios de lágrimas e com uma saudade imensa de meu avô, seu Valentim. Dias chuvosos como o de hoje em Floripa, sempre me fazem lembrar dele, ele dizia que não era de açúcar, encarava um dia chuvoso como se fosse de sol radiante.
Bom dia, faça sol ou faça chuva!

Baú de Sonhos disse...

Lindo e emocionante post! Sinta-se abraçada, Simone

Nega Patchwork disse...

Lindo Lu! Estas palavras me levaram a minha infância e juventude onde vive momentos mágicos como estes teus. Que saudades! Mas me sinto recompensada por ter tido o privilégio de ter vivido isso. Quisera que todos pudessem, em algum momento de sua vida, viver essas experiências tão simples mas tão ricas.
Abç

Amanda Pin disse...

Adorei Lu!
Como não lembrar da infância lendo essas histórias...
Voltei no tempo, minha vó era artesã, lembro que amava ir pra casa dela, pegar as tintas e pincéis para brincar...kkkk... Gosto que carrego comigo até hoje, pois amo pintar!
Beijo grande!

Ana disse...

Lu, que lindo post. Vc e suas belas palavras e lembranças. Um beijo, Ana.

Mi disse...

Delícia de texto! Deu para voltar no tempo junto... Não há como não lembrar da infância, de tempos idos, que não voltam mais. Recordar é viver! Beijo

Aninha Costa disse...

Costumo dizer para minha filha Sophia que estes pequenos porém valiosos momentos se chama felicidade, que num futuro distante ela irá entender, isto é a verdadeira riqueza que temos e podemos carregar para onde for, e ninguém pode nós tirar as lembranças, amei ler um pouquinho da sua felicidade beijos
Ana Costa

Atelie La' Nina disse...

Nossa Lu..até chorei com seu relato..me vi no tempo com a casa da minha avó que era exatamente assim... hoje guardo uma relíquia que passou pela minha tatara, minha bisa, minha avó, minha mãe e hoje comigo..a máquina de costura.. um luxo que tenho a honra de dê-la no meu Ateliê !!!
Beijos
Lazara
atelielanina@gmail.com

Ale Rodrigues disse...

Oi LU! Adorei a história. As melhores memórias sempre tem história de vô e vó...Tenho o privilégio de conviver com minhas vovós (as duas com 89 anos), não conheci meus avôs, mas dizem que eles tinham vidas interessantes. Como já diz o velho ditado, recordar é viver, e faz um bem danado para alma. Lindo texto. Bjs!!!