segunda-feira, 11 de março de 2013

Agulhas e linha de novo nas mãos!


Meu programa perfeito de domingo é devorar os jornais e revistas -  a leitura é lenta e compassada, a pressa não faz parte do ritual. No final de semana em que levei o Patch Encontro lugastal para Pelotas, cidade que me acolheu ainda adolescente e onde vivi por muitos anos, fugi totalmente à rotina da leitura (o trabalho foi intenso e verdadeiramente delicioso; falarei sobre o evento aqui no blog) e só a noite parei pro meu "momento domingão de leitura", dessa vez super especial - o caderno Estilo do jornal Diário Popular publicou uma matéria (capa) com duas páginas inteirinhas dedicadas ao resgate das manualidades, mais precisamente, a volta da costura à vida das mulheres contemporâneas. 

Segue abaixo a matéria na íntegra, com participação de artesãs queridas que também  fazem bonito por lá!


"Nunca poderia ter imaginado que a sensação de ter de volta uma agulha nas mãos fosse tão gratificante... Era como estar de volta a casa.” Assim como a personagem Sira Quiroga, do livro O tempo entre costuras, muitas mulheres têm feito essa viagem ao passado e retomado as técnicas da costura. Criação da escritora María Dueñas, Sira, a costureira espanhola que vivia os tumultuados anos 30 e 40 na Europa do século 20, encontrou no desespero o impulso para voltar ao ofício, que naquela época, por diferentes motivos, também foi apartado de sua vida. Mas na contemporaneidade tem sido por outros caminhos que se as comunidades revisam essa arte e a devolvem ao cotidiano cada vez mais tecnizado e no qual parecia tão difícil o reencontro com o artesanal.
Conhecido mundialmente como movimento craft, palavra da língua inglesa que significa artesanato, a expressão traduz essa tendência de se implantar o artesanal no dia a dia, algo que saia da mesmice do industrializado, do impessoal. O craft, além de trazer a personalização para o consumidor, evoca o carinho e o amor com o fazer.
O movimento, que ganhou força no Brasil nos últimos dez anos, abriga profissionais de diferentes áreas, donas de casa, jovens estudantes, enfim, pessoas de formações distintas que têm em comum o culto à criatividade e às atividades manuais. Luciana Gastal é um exemplo desse perfil. Com formação acadêmica em Direito, pela Universidade Católica de Pelotas, Lu, como é mais conhecida, encontrou na produção artesanal em tecido, o patchwork, mais que uma paixão, uma forma de expressão, um veículo para formar novos círculos de amizade e uma fonte de renda.
Lu Gastal conta que começou a costurar sozinha, ainda menina, fazendo roupinhas de boneca ou “pensando que fazia”, como ela mesmo diz. Depois do nascimento da primeira filha, ganhou uma máquina de costura. “Queria fazer uma festa de aniversário com bonecas de pano... aí nasce toda a minha história”, diz.
Artesanato nas horas vagas
A partir dessa primeira experiência não parou mais, mas o trabalho no Direito era prioridade. Artesanato era em casa e nas horas vagas. “Sempre gostei de artesanato, bordei ponto cruz, pintei madeira, mas pensava que seria necessário focar numa só técnica, senão nunca conseguiria trabalhar com qualidade meus produtos.” E foi assim que escolheu o tecido e o patchwork para serem as suas marcas registradas.
Lu Gastal não sabe exatamente de onde veio o gosto pela costura. “Sou neta de alfaiate, talvez tenha herdado essa história.” Mas enquanto o avô era vivo ela nem costurava. “Hoje adoraria contar pra ele essa história, essa escolha.” Sem uma figura próxima para ensinar as primeiras lides, foi em busca de conhecimento por conta própria.
Hoje trabalha com o estúdio em Porto Alegre (que reúne um ateliê de costura e uma pequena loja). Vende produtos Lugastal para outras lojas, apresenta um programa semanal (Tudo artesanal) em rede nacional, apresentando tutoriais do tipo “faça você mesma” em costura criativa e assina colunas em blogs referência às artesãs brasileiras, a exemplo do Elo7 e o Minha Singer, da marca Singer do Brasil. Lu conta que empresas de diversos segmentos artesanais também apostam no crescimento do mercado, o que dá para medir a força do movimento. Seus eventos de costura, como o Patch Encontro, como o que está sendo realizado em Pelotas neste fim de semana, tem apoio de empresas como Singer, Círculo e Fernando Maluhy.
A artesã é um dos casos mais conhecidos de trabalho bem-sucedido nesse segmento. Inclusive sua marca teve o reconhecimento do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios no ano passado. Mas não foi de uma hora para outra que ocorreram as mudanças. Lu começou a preparar a virada na sua vida há seis anos, através de cursos de empreendedorismo, em Brasília onde morava com o marido e duas filhas. O maior passo ocorreu em 2010, com a mudança da família para Porto Alegre.
A vontade era grande, mas faltava coragem, confessa. Eram vários os medos e dúvidas. “As pessoas olhavam pra mim e surpresas perguntavam: ‘Tu és costureira?’. Num certo momento resolvi enfrentar, essa valorização do 'ser costureira', teria de partir de mim e não dos outros”, conta. Lu deixou a advocacia e em junho do mesmo ano inaugurou sua loja e ateliê. Atualmente trabalha com técnicas de costura criativa, um patchwork mais contemporâneo, que foge daquele conceito de costurar bloquinhos milimetricamente iguais.

Feltro como matéria-prima
A experiência de Lu Gastal tem inspirado muitas artesãs, entre elas Sandra Rochefort, 42, dona de casa, mãe de dois meninos, um de 20 e outro de cinco anos. Ao contrário de Lu, Sandra viu a avó e a mãe sempre costurando. “Cresci com aquele barulhinho da máquina”, brinca. As costureiras trabalhavam somente para a família, mas foi o suficiente para passarem o gosto desta lide para a pequena. “Quando era criança ganhei até uma máquina de costura, daquelas pequenas de brinquedo.”
Entretanto, a vida a levou por outros caminhos. Mas o gosto por trabalhos criativos não desapareceu. Há seis anos, pouco antes de ter o segundo filho, Sandra procurou um curso de patchwork, tinha máquina de costura e gostava de inventar moda em casa. As amigas adoraram as novidades que o curso lhe proporcionou fazer e em pouco tempo as encomendas se avolumaram. “Notei que as pessoas gostavam dessas coisas e comecei a pesquisar na internet”, diz. Foi aí que conheceu Lu Gastal entre outras crafters. “Para mim a Lu é um ícone do patch no Brasil”, elogia.
O contato com outras pessoas através da internet a fez conhecer diferentes técnicas e ela se apaixonou pelo trabalho em feltro. Hoje, Sandra desenvolve, com a sua marca Feltrix, enfeites que reproduzem perfeitamente personagens infantis, por exemplo. A técnica é o overlap in felt ou seja a sobreposição de feltros.
Agora sua meta é cada vez mais casar o feltro com o tecido e expandir suas criações. A partir da parceria com a empresária e crafter Velcy Raab, tem ministrado cursos na loja e ateliê Retalhos e Arte. 
Velcy é outro caso de amor aos tecidos. A empresária, depois da aposentadoria, passou a se dedicar ao patchwork e viu nessa área um filão pouco explorado em Pelotas: as lojas de tecidos e outros materiais específicos para o segmento. Elas lembram, que há pouco mais de cinco anos eram escassos os produtos em Pelotas, tinham de comprar em Porto Alegre. O desenvolvimento desta área do comércio na cidade é prova de que o movimento craft chegou com tudo no Brasil. 

Caderninhos com tecidos
Em seu ateliê no Centro Comercial Zona Norte, eles estão por todo lado. Enroladinhos, dobrados ou em uso, sobre móveis, dentro de caixas ou em exposição. Apesar de não serem o centro do atual trabalho artesanal de Ceres Torres, 67, os tecidos ainda reinam no seu cotidiano.
Funcionária pública federal, Ceres começou fazendo um curso de encadernação para restauro, há 12 anos, pouco tempo depois da aposentadoria. Mas o trabalho em artesanato só tomou volume há seis anos, quando se mudou para o Laranjal, onde pôde construir um ateliê.
Nesse período passou a fazer encadernações, mas não em restauro. Os caderninhos eram expostos através do Flickr, uma página na web para depósito de imagens. E foi por meio dessa ferramenta que ela conheceu Lu Gastal. “Depois fui até Brasília e encontrei com ela por lá”, conta.
O contato com a fã do patchwork a entusiasmou para o trabalho com costura, mas o seu foco era mesmo a encadernação. “As minhas amigas do Flickr foram alterando os trabalhos e umas não costuravam e passaram a costurar.” Nessa onda surgiram as aulas virtuais nos sites Elo 7 e Tanlup, que muito ajudaram a Ceres. “Eles dão toda uma assessoria para o pessoal, tem página que ensina como se faz o negócio”, fala. E é também na web que ela abastece o ateliê.
A artesã também percebeu o crescimento no setor do patchwork e todos os derivados. “Aumentou barbaramente, é impressionante. Em Pelotas não se encontrava tecidos para isso”, diz ao lembrar que a loja e ateliê Pesponto foi a pioneira na cidade.
Hoje Ceres não utiliza mais o Flickr para expor seus caderninhos, a ferramenta do momento é o site de relacionamentos Facebook. De qualquer forma a internet continua sendo muito importante para o desenvolvimento e distribuição do seu trabalho. “Ela (a Lu Gastal) buscou linha mais empresarial que a maioria não tem. A maioria trabalha mais em casa, um trabalho alternativo. As pessoas vão fazendo coisas que sejam da sua habilidade e que possam transformar em ingresso de dinheiro para a família.”
Para Ceres o segredo do sucesso é fazer “muito bem-feito”. “O acabamento também tem que ser muito bom, a peça única. Uma das coisas que a artesã notou ao longo dos anos é que quando a produção aumenta o número de detalhes do trabalho diminui. Isto porque, normalmente, essas pessoas trabalham sozinhas. E o excesso de miudezas retarda as entregas.
Ceres prima pela qualidade de seus produtos e não quer que a pressa imponha restrições ao trabalho. Atualmente, através da sua marca, Bicho Papel, desenvolve linha de caderninhos com capas enfeitadas com tecidos, um elo entre as duas paixões. O diferencial é que esses detalhes são costurados à máquina. Mais um exemplo da união entre o antigo patchwork e os novos rumos da costura
."
por Ana Claudia Dias - Diário Popular


4 comentários:

Ceres Torres disse...

Muito bom o trabalho da Ana Claudia. E o Patch Encontro em Pelotas foi maravilhoso! Tomara que não demores a voltar!

bela silveira disse...

Tão pertinho e ao mesmo tempo distante de mim... foi uma pena não poder participar... deliciei a reportagem, com uma bela referência ao momento atual do mundo craft e principalmente patch... Parabéns pelo evento, garota... as pelotenses devem ter tido momentos mágicos!!! bjinho!!!

harumi disse...

amei esta matéria!!!! =)

luciana cortes disse...

amei essa matéria!!! quantas dicas boas para nós que estamos começando! obrigada!bjs.