Contar uma trajetória profissional em até 100 linhas, não ultrapassando 500 palavras; um briefing de criação, desenvolvimento e resultado do negócio, não é moleza. Em 2011, recebi o convite pra participar do Prêmio Sebrae Mulher de Negócios; inicialmente hesitei, mas diante da possibilidade de receber um consultor do Sebrae na lugastal e ter um feedback sobre o andamento dos negócios me impulsionou a participar. Em tempo hábil enviei o texto, e logo no início de janeiro li no twitter que o Prêmio tivera recorde de participações no Rio Grande do Sul. Semanas depois, recebo com alegria a notícia informando que havia passado para a próxima fase; fui visitada, novamente avaliada, e, por último, foi necessário entregar uma série de documentos.
Na última quinta-feira ocorreu a cerimônia de entrega do prêmio, e, com imensa alegria minha história foi escolhida entre as 9 finalistas do Rio Grande do Sul.
No dia 8 de março, duas gaúchas concorrerão ao prêmio nacional, a psicóloga Cecília Machado, de Cachoeira do Sul, na categoria empreendedora individual, e a pelotense Maria Helena Jeske, de Pelotas, na categoria empreendedora coletiva, e, com certeza, representarão as 334 mulheres empreendedoras gaúchas que participaram da etapa estadual!
Meu agradecimento carinhoso à equipe lugastal, aos amigos queridos, leitores do blog, clientes e à minha paciente família - sem todos vocês minha história empreendedora não seria completa! (obrigada,
tia Linha, que também me acompanha nessa trajetória!)
Conheci o empreendedorismo aos 9 anos, quando fazia pulseiras e as vendia nas férias. Anos depois, vivendo o pragmático mundo jurídico, redescobri o artesanato, e, em seguida, comecei ensaios empreendedores; atenta ao prestígio do artesanato com a comunidade de Brasília (onde morava), passei a participar de feiras mensais nos fins-de-semana. O valor do espaço era alto, mas as vendas me incentivavam a prosseguir. Assim nasceu meu ateliê, e me descobri cada vez mais imersa no mundo empreendedor. Chegou a hora de investir em conhecimento, e em 2006 aproveitei férias do trabalho para cursar o Empretec. Não me sentia apta a empreender, mas seguia meus projetos com afinco. Ainda exercendo advocacia, conheci as redes sociais antes delas se tornarem famosas, comecei a blogar e a lugastal começou a ser conhecida (o blog hoje tem mais de 2000 seguidores, com média de 45.000 acessos mês).
Em 2010 mudamos para Porto Alegre; hora de organizar o novo lar, adaptar filhas na escola e enquanto a recolocação profissional no mercado jurídico era difícil, a marca lugastal se solidificava no mercado artesanal, através de referências jornalísticas de blogs e revistas. Aquele era o momento de deixar os medos de lado! Com apoio das pessoas importantes na minha vida, esboçava o plano de negócios, folheava classificados e caminhava em busca do lugar ideal que se adequasse à minhas necessidades – localização e custo. Visitei lojas com diferentes propostas; percorri e analisei o comércio, para, então, desenhar um negócio pequeno, único e inovador no mercado do patchwork, e assim idealizei a lugastal, um misto de loja com ateliê.
Enquanto reformava o imóvel pequeno e muito antigo, costurava sem parar e produzia mercadorias para começar o negócio. Com auxílios financeiros familiares e intermináveis horas de trabalho, a loja foi inaugurada em junho de 2010. Dias depois recebo um concorrente “de peso”: a Copa do Mundo, e disputar com o futebol “não há quem possa”! Questionava a força de um comércio de bairro; poucas pessoas andavam na rua, possivelmente assistindo jogos em suas TVs; aquela era hora de batalhar!
Como lojas do segmento fechavam aos sábados e ofereciam cursos de costura mensais, propus à clientela dias especiais divulgados no blog, como o Cupcake Day, além oficinas avulsas de costura para iniciantes, e outras idéias que trouxessem o público feminino para dentro do meu pequeno comércio (sábados chuvosos passaram a ser nossos melhores dias de venda).
Artesãos parceiros foram fundamentais; peças eram garimpadas conforme o estilo e proposta lugastal – inovação, profusão de cores e originalidade. Quando já tínhamos clientes, produtos e vendas, nos faltava um detalhe importantíssimo: planejamento. As dificuldades, acertos e erros eram partilhados no blog em posts semanais, dando início à coluna Alinhavos&Gestão. Futuros empreendedores acompanhavam os textos com assiduidade, garantindo ao blog recordes nos acessos semanais e fortalecendo a marca. Hoje recebo relatos frequentes de pessoas que empreenderam motivadas pelos textos e sugestões da coluna, o que me dá a certeza de que partilhar experiências é fundamental.
Como os recursos financeiros eram escassos, conquistar clientes com simplicidade e criatividade foi a fórmula encontrada. Não tínhamos capital de giro; se comprávamos tecidos, tínhamos de vender para pagá-lo. Aos poucos a loja caiu no gosto da clientela, a divulgação “boca a boca” funcionava bem, enquanto escrevia pequenas notas e enviava para jornalistas. Essa foi uma excelente e econômica forma de mostrar a lugastal; aproveitando textos e fotos de qualidade postados no blog. Pequenas ações são sempre pensadas para as clientes; sorteios mensais e atendimento personalizado. Busco motivá-las sempre, pois além de oferecer produtos e matéria prima, a lugastal oferece inspiração!
Os meses seguintes à abertura da loja foram de crescimento discreto; muitos erros, alguns acertos. Passamos a vender produtos pelo blog; a loja virtual entrou no ar, mas não tive estrutura para mantê-la, as horas eram insuficientes e eu não sabia delegar. Essa, aliás, é minha maior dificuldade - nesse primeiro ano participei de todos os processos de criação/ execução dos produtos, sobrecarregando meu tempo.
Em 2011 nasceu o primeiro projeto paralelo à loja, o Clube do Pano. Atenta à dificuldade das pessoas em comporem estampas, propus a artesãs o envio de um kit com tecidos organizados em cores, através de pagamento fixo mensal. Hoje o Clube do Pano representa 10% do faturamento mensal, e em novembro teve crescimento de 60% em número de associadas pagantes, distribuídas em diversos estados brasileiros.
Outra forma de aumentar o faturamento e prospectar novos clientes é participar de feiras do segmento, hoje escolhidas de acordo com as estratégias da lugastal.
No nosso pequeno negócio, todas as sobras de produção são reutilizadas; retalhos médios são unidos na produção de pequenas peças; os pequenos viram flores em galhos secos. A idéia agrada o público, cada vez mais atento à preservação e reutilização.
Com um ano de funcionamento, a ansiedade e a sensação de que os dias eram insuficientes me fizeram procurar auxílio, era hora de implantarmos gestão em nossos processos. Com apoio de consultores, começamos o trabalho determinando rotinas (antes executadas desordenadamente). Atualmente estudamos os valores, missão, visão, e planejamento estratégico para 2012.
O capital de giro continua pequeno e as despesas são criteriosamente pagas. Me apoio constantemente em textos empreendedores; negocio preços e prazos e busco a solidificação da marca no mercado artesanal! Em julho de 2012 será lançada nacionalmente a linha de tecidos lugastal, em parceria firmada com a empresa líder no mercado têxtil para patchwork. Hoje trabalho quase 14 horas-dia; geramos três empregos diretos, sete indiretos, e os resultados aumentam discretamente – de dezembro (2010) a novembro o lucro líquido, no acumulado, cresceu 21%. Financeiramente, vivo um dos momentos mais “apertados” da vida profissional - o sorriso é proporcional aos planos! Os dias têm sido uma gostosa “rotina sem rotina”, e aos 40 anos, consegui, finalmente, encontrar um trabalho sem cara de trabalho. Pieguices à parte, sem esconder que há dias em que me sinto exausta e desanimada, digo sempre: em tudo, absolutamente tudo o que faço, há muito amor e dedicação!